DPOC e espirometria: diagnóstico, tratamentos e estratégias para uma melhor qualidade de vida
A Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) é uma doença respiratória crónica que afeta os brônquios e os pulmões, caracterizada por uma obstrução persistente do fluxo de ar. Esta condição não é totalmente reversível, mas com uma gestão terapêutica adequada é possível aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida dos doentes.
O que é a DPOC
A DPOC caracteriza-se por uma obstrução persistente das vias aéreas, que dificulta a passagem do ar para os pulmões e torna a respiração progressivamente mais difícil.
O principal sintoma da DPOC é a dispneia, ou seja, a dificuldade em respirar, que tende a persistir ao longo do tempo. Ao contrário da asma, em que o estreitamento das vias aéreas é frequentemente intermitente e reversível com medicação, na DPOC os danos nos brônquios e no tecido pulmonar são permanentes e tendem a agravar-se com a progressão da doença. Outros sintomas comuns incluem tosse crónica e expetoração de muco.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a DPOC afeta cerca de 392 milhões de pessoas em todo o mundo e é a terceira principal causa de morte a nível global, com aproximadamente 3,2 milhões de óbitos por ano. Em Itália, estima-se que 5–6% da população sofra de DPOC, com maior prevalência em pessoas com mais de 40 anos e entre fumadores.
A principal causa da doença é a exposição a substâncias irritantes, sobretudo o fumo do tabaco, tanto ativo como passivo, responsável por cerca de 85–90% dos casos. No entanto, a poluição atmosférica, a exposição profissional a poeiras e substâncias químicas e a predisposição genética também podem contribuir para o desenvolvimento da doença. É importante salientar que um número significativo de doentes com DPOC nunca fumou, o que sugere que outros fatores ambientais e genéticos desempenham um papel relevante.
Embora a DPOC não tenha cura, um diagnóstico precoce e um tratamento adequado permitem abrandar a progressão da doença, reduzir os sintomas e melhorar a qualidade de vida dos doentes.
Fenótipos da DPOC
Existem diferentes manifestações clínicas da DPOC:
- Bronquite Crónica: caracterizada por produção excessiva de muco nos brônquios, com tosse produtiva persistente.
- DPOC Obstrutiva com Broncospasmo: apresenta crises de obstrução das vias aéreas semelhantes às da asma, mas com resposta apenas parcial aos broncodilatadores.
- Enfisema: envolve a destruição do tecido pulmonar, com aumento dos alvéolos e formação de bolhas de ar, reduzindo a eficiência das trocas gasosas.
Frequentemente, estes fenótipos coexistem no mesmo doente, tornando necessária uma abordagem terapêutica personalizada de acordo com a manifestação predominante.
Progressão e Exacerbações
A DPOC tende a agravar-se ao longo do tempo, comprometendo progressivamente a capacidade respiratória do doente. Este declínio não é linear e pode ser acelerado por episódios de exacerbação, fases em que os sintomas se agravam de forma súbita.
As exacerbações podem ser desencadeadas por infeções respiratórias virais ou bacterianas, pela exposição a poluentes atmosféricos ou por fatores irritantes como o fumo do tabaco. Durante estas fases, o doente apresenta agravamento da dispneia, aumento da tosse e da produção de expetoração, frequentemente acompanhados de febre e mal-estar geral.
De acordo com dados da Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD), cada exacerbação pode provocar uma perda acelerada da função pulmonar, com uma redução do volume expiratório forçado no primeiro segundo (FEV1) até 100 ml por episódio.
As exacerbações não só agravam a evolução da DPOC, como também aumentam o risco de complicações graves. Estudos clínicos mostram que cerca de um terço dos doentes com exacerbações graves necessita de hospitalização, com uma taxa de mortalidade intra-hospitalar que pode atingir 10–15% nos casos mais severos. Além disso, após uma exacerbação, muitos doentes não recuperam totalmente a função pulmonar anterior, aumentando o risco de perda progressiva de autonomia.
A gestão das exacerbações é, por isso, fundamental para abrandar a progressão da doença. Estratégias preventivas, como a vacinação contra a gripe e o pneumococo, a cessação tabágica e o uso de terapêuticas broncodilatadoras de longa duração, podem reduzir significativamente a frequência e a gravidade destes episódios, melhorando a qualidade de vida do doente.
Diagnóstico: o papel da espirometria
O diagnóstico da DPOC baseia-se numa combinação de avaliação clínica, história do doente e exames complementares. A espirometria é o exame fundamental para confirmar a presença de obstrução brônquica. Este teste mede o volume de ar que o doente consegue expirar de forma forçada no primeiro segundo (FEV1) e a capacidade vital forçada (FVC). Um rácio FEV1/FVC inferior a 70% após a administração de um broncodilatador é indicativo de DPOC.
Para além da espirometria, podem ser realizados outros exames para avaliar a gravidade da doença e identificar possíveis complicações:
- Gasometria arterial: para avaliar os níveis de oxigénio e dióxido de carbono no sangue arterial.
- Teste de difusão do monóxido de carbono (DLCO): para avaliar a capacidade dos pulmões de transferir gases do ar para o sangue.
- Tomografia Computorizada (TC): útil para detetar a presença e a extensão do enfisema.
Papel do Médico de Família e do Especialista
O médico de família desempenha um papel fundamental na identificação precoce dos sintomas e dos fatores de risco da DPOC, encaminhando o doente para o pneumologista para uma avaliação mais aprofundada. Uma colaboração estreita entre o médico de cuidados de saúde primários e o especialista é essencial para uma gestão eficaz da doença.
As recomendações GOLD fornecem orientações atualizadas para o tratamento da DPOC. Recentemente, foi desaconselhado o uso inicial da combinação de corticosteroides inalados (CI) com beta-agonistas de longa duração (LABA). Em alternativa, recomenda-se a dupla broncodilatação com LABA e antagonistas muscarínicos de longa duração (LAMA) como tratamento de primeira linha. Além disso, a terapêutica tripla, que combina CI, LABA e LAMA, demonstrou ser mais eficaz na prevenção das exacerbações do que a dupla terapêutica.
Para além da terapêutica farmacológica, é essencial que os doentes com DPOC adotem um estilo de vida saudável. Programas de reabilitação respiratória podem ajudar a melhorar a capacidade respiratória e a manter um nível adequado de atividade física. Sempre que possível, deve evitar-se a oxigenoterapia domiciliária prolongada, de modo a preservar a autonomia e a qualidade de vida do doente.