Ver dentro do corpo: a viagem do diagnóstico por imagem
Da luz de uma lente aos campos magnéticos da ressonância, a medicina aprendeu a observar o interior do corpo sem necessidade de o incidir. Um percurso feito de descobertas físicas, que hoje se tornaram indispensáveis na prática clínica quotidiana.
Três formas de ver dentro do corpo
Poder observar um órgão, um tecido ou uma estrutura interna sem recorrer ao bisturi é uma das conquistas mais silenciosas e revolucionárias da medicina moderna.
Por detrás de cada imagem diagnóstica – uma retina fotografada, um feto em movimento, uma lesão no colo do útero ampliada quarenta vezes – escondem-se décadas de descobertas físicas. As tecnologias que delas nasceram nunca deixaram de evoluir e ainda hoje se renovam entre vídeo, conectividade e inteligência artificial.
Ao longo do tempo, a medicina aprendeu a olhar para o interior do corpo tirando partido de três fenómenos físicos distintos:
- A luz, com os instrumentos ópticos como o otoscópio, o oftalmoscópio e o colposcópio
- O som, que está na base da ecografia
- As formas de energia invisíveis ao olho, ou seja, os raios X e a ressonância magnética
Ver com a luz: os instrumentos ópticos
O primeiro modo de "ver" dentro do corpo é também o mais antigo e o mais direto: uma lente, uma luz e o olho do médico. Otoscópio, oftalmoscópio e colposcópio partilham este princípio, aperfeiçoado ao longo do tempo com iluminação LED, óticas digitais e conectividade.
- O colposcópio, inventado em 1925 por Hans Hinselmann para o diagnóstico precoce das lesões do colo do útero, contribuiu – juntamente com o teste de Papanicolau – para reduzir em 70% a incidência do carcinoma do colo do útero nos países desenvolvidos, segundo a Organização Mundial de Saúde. Hoje a videocolposcopia e a imagiologia digital, integradas com a inteligência artificial, renovaram a sua utilização clínica.
- O oftalmoscópio, criado há mais de um século para observar a retina e o nervo óptico, integra-se hoje com a inteligência artificial: um mercado global estimado entre os 245 e os 620 milhões de dólares, destinado a atingir mil milhões até 2030.
- Também o otoscópio viveu a sua transformação digital: em 2023, as luzes LED ultrapassaram na Europa os 45% de quota de mercado, em detrimento das tradicionais lâmpadas halógenas.
Ver com o som: a ecografia
Uma segunda forma de "ver" não passa pela luz mas pelo som. O efeito piezoeléctrico, descoberto pelos irmãos Curie em 1880, e os princípios de eco-localização hipotetizados já no século XVIII por Lazzaro Spallanzani ao observar os morcegos, lançaram as bases para o nascimento e a evolução da ecografia. Das primeiras imagens dos anos 40 à moderna ecografia color Doppler, esta tecnologia tornou-se imprescindível em numerosas especialidades. A miniaturização deu origem ao ecógrafo portátil, que concentra a potência de um aparelho tradicional na palma da mão: segundo um estudo publicado na Critical Care Medicine em 2020, a ecografia point-of-care (POCUS) reduziu os tempos de diagnóstico em 40% nos doentes críticos.
Ver além da luz visível: raios X e ressonância magnética
A terceira família de tecnologias aproveita formas de energia invisíveis ao olho humano. Em 1895, Wilhelm Conrad Röntgen descobriu os raios X, abrindo caminho à radiologia moderna.
O entusiasmo inicial, contudo, não tinha em conta os riscos das radiações ionizantes: foi a investigadora britânica Alice Stewart, nos anos 50, a demonstrar que a exposição aos raios X durante a gravidez duplicava o risco de leucemia infantil, um trabalho que revolucionou os protocolos de segurança radiológica.
Desde então, a radiologia de raios X conheceu uma evolução extraordinária, sempre atenta a limitar as doses: da chapa em película passou-se à radiografia digital e à tomografia computorizada (TC), capaz de reconstruir imagens tridimensionais do corpo a partir de centenas de projeções. Hoje expressa-se em aplicações muito diversas entre si – da mamografia à angiografia, até à TC de alta resolução – com doses de radiação cada vez mais reduzidas e algoritmos de inteligência artificial a apoiar a interpretação.
A procura de maior segurança favoreceu também a difusão de alternativas sem radiação, como a ressonância magnética. A RM nasce de descobertas de física quântica sobre o momento magnético dos núcleos atómicos: o trabalho de Paul Lauterbur e Peter Mansfield, premiado com o Nobel de Medicina em 2003, permitiu obter imagens de altíssima resolução de órgãos e tecidos moles sem qualquer radiação ionizante.
O percurso para olhar dentro do corpo de forma cada vez mais segura e menos invasiva nunca parou: da iluminação LED à imagiologia digital, da miniaturização dos aparelhos às doses de radiação cada vez mais reduzidas, até ao desenvolvimento da inteligência artificial, que hoje apoia o médico na interpretação das imagens. Conhecer a origem e a evolução destes instrumentos ajuda o profissional de saúde a escolher com maior consciência a tecnologia mais adequada ao seu âmbito clínico, num percurso que vai da lente do médico de aldeia direto aos sensores inteligentes de amanhã.