Fotoexposição e saúde da pele: da protecção solar à consulta dermatológica
A exposição não protegida aos raios UV é uma das principais causas de danos cutâneos evitáveis: queimaduras solares, fotoenvelhecimento precoce e um risco aumentado de tumores cutâneos. No entanto, as queimaduras solares continuam a ser um fenómeno clinicamente subestimado. O profissional de saúde é o primeiro ponto de contacto para uma prevenção eficaz e estruturada.
Como a radiação ultravioleta age sobre a pele
O espectro ultravioleta que atinge a pele divide-se em três bandas com características biológicas muito diferentes:
- UVC (100–280 nm): absorvidos quase na totalidade pelo ozono, não atingem a pele em condições normais.
- UVB (280–315 nm): atingem a epiderme, são os principais responsáveis pelo eritema e contribuem de forma importante para o dano directo do ADN e para a carcinogénese cutânea.
- UVA (315–400 nm, mais de 95% da radiação UV ao nível do solo): penetram na derme profunda; não causam queimaduras imediatas, mas induzem stress oxidativo e fotoenvelhecimento.
A resposta cutânea à radiação depende de factores individuais e ambientais. No plano individual, o fototipo segundo a escala de Fitzpatrick vai de I a VI: os fototipos I e II, de pele clara, produzem pouca melanina protectora e queimam-se facilmente, com um risco mais elevado de tumores cutâneos, incluindo o melanoma; os fototipos V e VI, de pele mais escura, possuem uma maior fotoproteção natural, mas não são imunes ao dano UV, ao fotoenvelhecimento ou aos tumores cutâneos. No plano ambiental, a intensidade da radiação UV aumenta perto do equador, cresce com a altitude, atinge o pico nas horas centrais do dia e nos meses de primavera-verão: condições que podem amplificar a exposição efectiva independentemente do fototipo do doente.
A protecção solar: o que diz o SPF
O factor de protecção solar (SPF, do inglês Sun Protection Factor) mede exclusivamente a capacidade de um produto de bloquear os raios UVB, responsáveis pelas queimaduras solares e pela maioria dos carcinomas cutâneos. Um filtro SPF 30 intercepta cerca de 97% dos raios UVB incidentes; um SPF 50 chega aos 98%.
A protecção UVA, responsável pelo envelhecimento cutâneo precoce e por uma quota significativa de mutagénese profunda, não é captada pelo SPF: é indicada separadamente pelo símbolo UVA dentro de um círculo.
É útil recordar as principais indicações práticas para uma utilização correcta do protector solar:
- Aplicação da quantidade correcta: o padrão indica 2 mg/cm² de pele (cerca de uma colher de chá para o rosto e 30 ml para o corpo inteiro).
- Aplicação pelo menos 20-30 minutos antes da exposição, para assegurar uma cobertura uniforme e permitir a secagem/absorção segundo a formulação.
- Reaplicação a cada 2 horas e após cada banho ou transpiração intensa, independentemente do SPF declarado.
- Atenção às zonas mais expostas e frequentemente esquecidas: orelhas, nuca, dorso dos pés e couro cabeludo nos indivíduos com cabelos ralos.
- Escolha de fórmulas resistentes à água (water-resistant) em contextos de actividade física ou balnear prolongada.
A queimadura solar: classificação clínica e gestão
A queimadura solar é uma queimadura por UV, de 1.º grau (eritema) ou 2.º superficial (flictenas): o dano no ADN desencadeia uma resposta inflamatória aguda com vasodilatação, edema e dor. O eritema surge entre 2 a 6 horas e atinge o pico às 12-24 horas; as formas mais graves apresentam flictenas, cefaleia, arrepios, febre e náuseas. Está indicada uma avaliação médica em caso de febre alta, aumento da frequência cardíaca ou persistência dos sintomas além de 48 horas.
A gestão de primeiro nível prevê a interrupção da exposição, compressas com água fresca e hidratantes; para a dor são úteis o paracetamol ou os AINEs. As queimaduras solares, em particular as repetidas durante a infância e a adolescência, estão associadas a um aumento do risco de melanoma; a prevenção da exposição excessiva é importante em todas as idades.
A consulta dermatológica: instrumentos, periodicidade e papel do médico
A dermoscopia transformou radicalmente o diagnóstico precoce do melanoma. Em relação ao exame a olho nu, que garante uma sensibilidade diagnóstica estimada em cerca de 70% nos profissionais experientes, a dermoscopia permite atingir uma sensibilidade superior a 90% nas mãos de um dermatologista. Este salto de precisão traduz-se directamente em diagnósticos em estadios mais precoces, onde o prognóstico é significativamente melhor.
A mapeamento total dos nevos, associado à dermoscopia sequencial, pode ser utilizado para a monitorização longitudinal de doentes seleccionados de alto risco, com base no número e na atipia dos nevos, na história pessoal e familiar e noutros factores de risco. A periodicidade da consulta dermatológica deverá ser personalizada em função do perfil de risco, da história pessoal e familiar, do número e da atipia dos nevos e de eventuais tumores cutâneos anteriores.
O médico de medicina geral e os profissionais de saúde dos contextos ambulatórios de primeiro nível desempenham um papel crucial como primeiro filtro. Reconhecer as características ABCDE das lesões suspeitas (Assimetria, Bordo irregular, Cor não uniforme, Dimensões superiores a 6 mm, Evolução recente) e encaminhar atempadamente para a consulta especializada é um acto clínico simples mas de grande impacto prognóstico. A ausência dos critérios ABCDE não exclui um melanoma; particular atenção deve ser prestada também a uma lesão nova, diferente das restantes, ou que muda rapidamente.