Karl Landsteiner e a descoberta dos grupos sanguíneos

Do mistério das transfusões mortais à classificação ABO: como Karl Landsteiner, com seis amostras de sangue e uma perspetiva imunológica então única, fundou em 1901 a medicina transfusional.

Um enigma mortal sem resposta

No século XIX, as transfusões de sangue eram uma arma de dois gumes: em alguns casos salvavam a vida, noutros tiravam-na em poucos minutos, sem que a medicina soubesse prever qual dos desfechos iria prevalecer. As primeiras tentativas documentadas remontam ao século XVII, quando alguns médicos europeus tentaram transfundir sangue animal para o homem, com resultados quase sempre letais; mesmo entre sangue humano e humano, as reações mortais eram frequentes e totalmente imprevisíveis. Também a medicina do final do século XIX não dispunha de qualquer teoria coerente: colocavam-se hipóteses de infeções, incompatibilidades humorais, fraqueza constitucional do recetor — mas nenhuma explicação resistia à observação clínica sistemática. O sangue permanecia, na prática médica, um fluido essencialmente homogéneo e indecifrável.

Um químico entre médicos

Karl Landsteiner nasceu em 1868 em Viena; licenciou-se em medicina na Universidade de Viena em 1891, mas em vez de enveredar pela prática clínica escolheu um percurso invulgar para um médico da época: passou cinco anos nos laboratórios de química orgânica de Emil Fischer e de Eugen Bamberger. Nesse período, aperfeiçoou uma mentalidade de químico, aprendendo a procurar estruturas, especificidades, mecanismos. Regressou depois a Viena em 1896 para se dedicar ao estudo da imunologia no Departamento de Anatomia Patológica. Nesses cinco anos, trabalhou com uma intensidade metódica que se tornaria lendária entre os seus colaboradores: publicou cerca de cinquenta trabalhos sobre reações serológicas, mecanismos de hemólise e toxinas bacterianas — uma produção que revela tanto a sua curiosidade como a sua obsessão pelo rigor experimental. Foi precisamente esta trajetória híbrida, a meio caminho entre a química pura e a medicina, que forjou o olhar que os seus contemporâneos não tinham. Enquanto a maioria dos médicos via o sangue como um líquido orgânico indiferenciado, Landsteiner lia-o como um sistema de reconhecimento molecular. Foi precisamente esta bagagem — a familiaridade com antigénios, anticorpos e reações serológicas — que o tornou capaz de ver no sangue aquilo que os outros não procuravam: uma especificidade individual, transmissível e mensurável.

A experiência de 1901 e a classificação ABO

Em 1901, Landsteiner dá um passo de extraordinária simplicidade: recolhe amostras de sangue de si próprio e de cinco colegas do seu laboratório no Instituto de Anatomia Patológica de Viena e mistura-as entre si em todas as combinações possíveis, separando soro e glóbulos vermelhos. Observa que em alguns pares os glóbulos vermelhos aglutinam, formam grumos e precipitam, enquanto noutros permanecem intactos. Conclui que existem pelo menos três tipos de sangue humano, que classifica como A, B e O. No ano seguinte, os seus colaboradores Decastello e Sturli descrevem o quarto grupo: AB. O mecanismo assenta em dois elementos: os antigénios de superfície presentes nos glóbulos vermelhos e as proteínas de defesa que circulam no plasma (os anticorpos). Cada pessoa expressa nos seus glóbulos vermelhos um determinado antigénio de superfície — A, B, ambos no caso AB, nenhum no caso O — e produz no sangue anticorpos contra os antigénios que não possui. As combinações compatíveis são as seguintes:

  • Grupo O — dador universal: pode doar a todos os grupos (O, A, B, AB); só pode receber sangue de dadores do grupo O.
  • Grupo A — pode doar a A e AB; pode receber de O e A.
  • Grupo B — pode doar a B e AB; pode receber de O e B.
  • Grupo AB — recetor universal: só pode doar a AB; pode receber de todos os grupos (O, A, B, AB).

Do laboratório à clínica — e o Nobel (quase) esquecido

A descoberta de Landsteiner, inicialmente recebida com pouco interesse pela comunidade médica — o seu artigo de 1901 ocupa apenas duas páginas na Wiener klinische Wochenschrift e durante anos não é retomado nem desenvolvido pelos colegas —, encontra a sua primeira aplicação em larga escala durante a Primeira Guerra Mundial: perante o enorme afluxo de feridos, os serviços de saúde militares começam a tipar sistematicamente o sangue dos soldados, transformando em procedimento clínico padrão aquilo que durante mais de uma década tinha permanecido teoria de laboratório. Em 1909, Landsteiner já tinha formalizado a classificação completa em quatro grupos. Em 1919, em condições de dificuldade económica do pós-guerra que tornam a investigação insustentável em Viena, deixa a Áustria rumo a Haia e depois, em 1923, ao Rockefeller Institute de Nova Iorque, onde obtém a cidadania americana e continua a trabalhar com a mesma intensidade dos anos vienenses. O Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina chega em 1930 — quase trinta anos depois da descoberta original, e quinze anos depois de a classificação ABO já ter salvado milhares de vidas nas frentes de guerra — reconhecendo formalmente um contributo que já tinha revolucionado a prática clínica a nível mundial.

O legado na medicina contemporânea

O sistema ABO continua a ser hoje o pilar da medicina transfusional: todos os anos são recolhidas cerca de 117,5 milhões de unidades de sangue doadas, todas tipadas de acordo com a classificação de Landsteiner. A isto junta-se o fator Rh — determinado pela presença ou ausência do antigénio D nos glóbulos vermelhos —, descoberto pelo próprio Landsteiner em 1940: relevante tanto em obstetrícia, onde a incompatibilidade Rh entre mãe e feto causa a doença hemolítica do recém-nascido (hoje evitável com imunoglobulinas anti-D), como nas transfusões, em que um paciente Rh negativo exposto a sangue Rh positivo fica sensibilizado, tornando perigosas transfusões incompatíveis posteriores — razão pela qual em situações de emergência se recorre ao sangue O negativo, universalmente compatível. A compatibilidade ABO rege também a atribuição de órgãos em transplantação; por fim, os grupos sanguíneos conservam valor como marcadores genéticos hereditários em medicina forense e direito da família.

Karl Landsteiner morreu a 26 de junho de 1943 no laboratório do Rockefeller Institute, pipeta na mão, enquanto ainda trabalhava no estudo dos antigénios do sangue. O seu legado não é apenas científico: é o lembrete de que algumas das descobertas mais decisivas na história da medicina nascem da observação metódica e da humildade intelectual de quem aceita questionar aquilo que parece óbvio.